Vilãs Fashionistas

Nem sempre é a mocinha quem dita as regras da moda. No cinema — e, muitas vezes, na cultura pop — quem rouba a cena (e o guarda-roupa) são elas: as vilãs. Donas de personalidade forte, presença magnética e figurinos inesquecíveis, as vilãs fashionistas se tornaram verdadeiras referências de estilo, influenciando coleções de alta-costura, editoriais de moda e milhares de produções inspiradas em seus looks icônicos.

Essas personagens transcendem a tela: elas vivem nos moodboards dos estilistas, nas vitrines conceituais das grandes maisons e até nas fantasias de Halloween com toque fashionista. Suas roupas não são apenas trajes — são armaduras, narrativas e declarações de poder.

Seja no mundo mágico dos contos de fadas ou nas trincheiras do mundo corporativo, essas figuras mostram que elegância, ousadia e estética marcante podem ser tão poderosas quanto qualquer feitiço. A seguir, descubra como cinco vilãs se tornaram ícones de moda — e por que elas continuam inspirando o universo fashion até hoje.

Odete Roitman – Vale Tudo (1988 e 2025)

Antes das vilãs hollywoodianas dominarem o imaginário fashion, o Brasil já tinha sua própria referência de poder, elegância e veneno estilizado: Odete Roitman. Interpretada por Beatriz Segall na novela Vale Tudo, Odete era uma vilã fria, sarcástica e implacável — e seu figurino era parte essencial dessa narrativa.

Com terninhos estruturados, ombreiras poderosas, broches imponentes, pérolas e cabelos impecavelmente penteados, Odete incorporava a estética da mulher rica e autoritária dos anos 80. Seu guarda-roupa traduzia status, rigidez e controle, refletindo o perfil de uma mulher que não apenas comandava impérios — mas também impunha medo com um simples olhar. Seu visual influenciou o imaginário da vilania brasileira e foi uma das primeiras grandes expressões de vilã fashionista na televisão nacional.

Na versão 2025, Odete Roitman, interpretada por Débora Boch, vai vestir as grifes Giorgio Armani, Dior e Chanel, além de Alexandre Herchcovitch e outras grifes, segundo a figurinista Marie Salles. 

Débora Bloch como Odete Roitman (2025) - Foto: Divulgação Globo/Estevam Avellar

Miranda Priestly – O Diabo Veste Prada

Anna Wintour foi referência no filme O Diabo Veste Prada, interpretada por Meryl Steep

Antes mesmo de aparecer em cena, Miranda já era moda — literalmente. Inspirada em Anna Wintour, a editora mais temida do mundo fashion, a personagem foi construída como a personificação da autoridade estilística. Seus casacos de corte perfeito, o cabelo prateado imaculado e o olhar impiedoso são tão impactantes quanto silenciosos.

O figurino de Miranda, desenhado pela icônica Patricia Field (a mesma de Sex and the City), foi pensado para comunicar luxo editorial e sofisticação máxima. Itens de marcas como Donna Karan, Valentino e, claro, Prada compõem seu guarda-roupa — que, curiosamente, custou mais de US$ 1 milhão para ser montado.

Miranda não apenas veste Prada — ela dita o que o mundo veste. Seus figurinos foram desenvolvidos com base em editoriais reais, e cada detalhe comunica poder e domínio. Hoje, ela é considerada uma das maiores vilãs fashionistas da cultura pop — e uma das mais bem-vestidas da história do cinema.

Malévola – Maleficent

Quando Angelina Jolie assumiu o papel de Malévola, a personagem ganhou um novo status: o de musa da moda sombria. Os chifres esculturais, a maquiagem impactante e os ombros estruturados foram pensados para comunicar uma força elegante, sobrenatural e teatral.

O figurino — inspirado em armaduras medievais, pássaros de rapina e coleções de alta-costura como as de Alexander McQueen — foi criado por Anna B. Sheppard, com participação direta de Jolie, que inclusive ajudou a desenhar os chifres e a escolher os tecidos. A estética poderosa e enigmática de Malévola virou tendência em desfiles temáticos e editoriais de fantasia gótica.

Ela é mais do que uma vilã: é um ícone visual, capaz de unir conto de fadas, feminilidade feroz e estética fashion em uma única imagem. Uma vilã fashionista com presença digna de passarela.

Angelina Jolie em Malévola (2014)

Curiosamente, a Malévola original da animação de 1959 também foi considerada à frente de seu tempo. Criada por Marc Davis, um dos “Nine Old Men” da Disney, sua silhueta longilínea, manto com gola pontiaguda e tons verdes e roxos contrastantes foram inspirados em modas medievais e no estilo de gravuras góticas. Seu design foi pensado para evocar um misto de nobreza e ameaça, tornando-a um ícone de estilo sinistro décadas antes da reinvenção live-action.

Uma curiosidade marcante é que a personagem da animação foi uma das primeiras vilãs da Disney com um figurino pensado como alta-costura animada: o manto escuro com forro em roxo e os adereços da cabeça deram a ela uma presença visual inconfundível.

Malévola em A Bela Adormecida (1959)

Rainha Má – Branca de Neve

A primeira vilã da Disney também foi uma das primeiras grandes personagens a incorporar um visual 100% icônico. A capa roxa, a gola alta, o vestido preto e vermelho e a coroa dourada são símbolos eternos da vilania glamourosa.

O figurino foi cuidadosamente elaborado nos anos 1930 com referências da pintura flamenga e retratos reais da nobreza europeia, refletindo o imaginário medieval e renascentista. Sua postura ereta, maquiagens marcadas e silhueta simétrica ajudaram a consolidar o arquétipo da “rainha má” — que segue sendo usado até hoje na moda editorial, em editoriais inspirados por figuras como Lady Macbeth, Medusa e até ícones contemporâneos como Rihanna.

Grifes como Dolce & Gabbana e Jean Paul Gaultier já criaram coleções inteiras com ares de realeza sombria. A Rainha Má é, sem dúvida, uma das mais influentes vilãs fashionistas de todos os tempos.

Em 2025 Gal Gadot interpreta a Rainha Má nas telonas na releitura live-action de A Branca de Neve e o figurino fica por conta de Sandy Powell, vencedora de 2 Oscar. A Rainha ganha visual mais justo, cores mais escuras e faz uso de muitas jóias.

A Rainha Má de Branca de Neve nas duas versões (1937 e 2025).

Cruella – Cruella / 101 Dálmatas

Cruella já nasceu fashion. Desde a animação de 1961, sua silhueta excêntrica e os casacos de pele a destacavam entre as vilãs. Mas foi com o filme estrelado por Emma Stone que ela se consolidou como ícone de estilo. O figurino, assinado por Jenny Beavan (vencedora do Oscar), foi criado como se fosse uma coleção real de moda — com desfiles performáticos, figurinos conceituais e até vestidos que se transformam em cena.

Beavan mergulhou em referências punk dos anos 70, na rebeldia de Vivienne Westwood e na estética DIY para construir uma Cruella que é, ao mesmo tempo, underground e glamourosa. Cada look da personagem tem nome próprio e conceito — algo comum em desfiles de alta-costura.

Cruella representa a rebeldia estilizada: alfaiataria desconstruída, couro, preto e branco, e uma estética punk de luxo. Ela é uma das vilãs fashionistas mais influentes da moda contemporânea — e uma das mais copiadas em festas temáticas e Halloween fashion.

Cruella DeVil em 101 Dálmatas (1961)
Emma Stone no filme live action de 2021

A versão de 2021 também se destacou por aproximar a personagem do universo da alta-costura de forma quase documental: o filme apresenta Cruella (com Emma Stone) como uma estilista em ascensão, lutando contra o sistema e contra uma indústria dominada por tradições. Seu estilo evolui junto com sua narrativa — dos looks experimentais de estagiária aos grandes espetáculos de moda como forma de protesto. A cena do vestido vermelho em chamas, revelando uma peça preta dramática por baixo, entrou para a cultura pop como um momento de virada fashion e cinematográfica.

Regina George – Meninas Malvadas

Rachel McAdams em Meninas Malvadas (2004)

Ela não precisa de magia nem de trajes medievais para impor sua moda. Regina George dominou o ensino médio (e o universo fashion dos anos 2000) com saias curtas, suéter rosa, baby tees e um ar de arrogância irresistível. Seu visual virou sinônimo de poder adolescente e definiu o estilo Y2K.

O figurino da personagem, criado por Mary Jane Fort, teve como base o estilo das marcas mais desejadas das adolescentes da época: Abercrombie & Fitch, Juicy Couture, Ralph Lauren e Dior. O famoso suéter rosa das quartas-feiras virou um ícone cultural. Regina virou meme, fantasia e inspiração de coleções cápsula retrô.

Hoje, seu estilo é reeditado por marcas como Dolls Kill, Urban Outfitters e até grifes de luxo que se apropriam do universo Y2K. Regina George é a vilã fashionista mais pop da geração millennial — e um case de influência duradoura.

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